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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Depreciosa pedra

o vazio nos olhos da fome de Ser,
de alimentar-se e nutrir-se, de pessoalizar-se...
é o vazio da pedra no caminho,
cegando o espírito para a fome escondida:
fome de pão e de Nome.


o corpo não cala,
mas seu grito,
o vício consome, abafa.
(---) e consumidos pelo próprio consumo,
são ninguém além do codinome.


aquele, Galego, infortuna o próprio parceiro,
que ao invés de dinheiro
pede por biscoito,
daqueles de ar como diria sua recordada avó.


Galego atormenta,
não cessa de pensar na pedra,
o que leva-o, "paradoxalmente" a não pensar na pedra,
pois não pensa em nada...


pensa em não pensar,
sem pesares, sem pesar,
sem balanças para além da prontidão da fissura.


tão rachado que nem mais se encontra,
e como tantos apartados, desata a desapontar,
já não se importando com o que foi ou virá,
com os laços, lastros,
com o Amor e sua faculdade de perdoar...


não rimam, não constroem,
corroendo-se por dentro,
não vêem nada além das paredes do fundo do poço.


e como não dormem,
igualmente não acordam,
e o sol que para todos brilha,
sua graça não lhes irradia,
velado pela sobreposição
de sombra sob sombra.


Igor L.C.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Existência Poética

Não quero viver um amor
para a existência de um poema, 
mas sim Viver um Poema, 
pela existência de um Amor.


Igor L.C.


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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Brasil.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

De poemas viemos aos poemas retornaremos

O mesmo vento que trazendo a chuva
apaga o fogo,
ao findar das gotas reassopra,
e acende a chama de novo.

A impermanência media ciclo
do eterno que aqui está:
de árvore a galhos secos,
fogueira, carvão e poema...

e de poema talvez se torne
o tugúrio de um coração,
pulsando alegre em tormentas,
aspirando ser criação.

Igor L.C.

domingo, 25 de setembro de 2011

Choveu

Obrigado, ó mãe, pela chuva que derramas
Teu pranto de alegria sublima a letargia
Impulsiona a alma à primavera que irradia
Manifestas que és vida e todo corpo se levanta
                                                    
As plantas, o bêbado, o vizinho praguejante
A moça, o casal, o machista delirante
Do Hades se esquecem acotovelando-se às janelas
Brindando todos juntos o céu que vêm à Terra
                                               
E é Gaia prontamente quem lhe torna a coroar
Com o canto das cigarras que parecem antecipar
Em uníssona harmonia vespertina pós verão
                                               
Cores e odores das flores a brotar
Amanhã ao acordarem, com Apolo a carregar
O sol pela abóbada, do orvalho se secarão.
                                                                                                                   

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Consciência de si

É preciso morrer para poder dormir
pois sem esquecer de si
quem poderia se ir?

ao contrário, na morte, é preciso se segurar
pois se em si não acreditar
como permanecer e mudar?

é preciso morrer
para renascer
o cotidiano.


Igor L.C.

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Fim dos tempos

Os homens loucos
todos eles
            ocos
não esperem nada
de mim
além do fogo

não chovo
sou o trovão da guerra
da água que não deságua,
da espera que não se acaba,
da seca da fonte seca,
do tempo que não respira,
enquanto inspira
os homens loucos
a serem rotos.

Sem água a terra é nada
oca cãibra que não passa;
mas eu trovão que se escuta
sou estrondo ouvido esperança
de deixar de ser lança-chamas
e ser gota que cultive as plantas

mas eu trovão des-espero
sou prelo daquilo que quero
pré-impresso nos meus cadernos
tua sede se torna teu credo
teu medo devaneio se torna
e entorna
rios de choro na boca
oca, ávida, louca.

Enfadonha desgraça humana
largue mão desta fé cigana
que migra do que acredita
mitifica o que santifica
tacanha miséria urbana
que se ilude
mas cai da cama.

Igor L.C.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Turista


Quarenta e um graus; quinze horas e cinquenta e cinco minutos; 41º... 15:55.

Sinto a onda solar reluzir em mim pelas calçadas de Niquiti. Destino: praia do sossego. Dois litros de água e mais uma garrafa menor para cada. Entramos no ônibus.


O calor deve exaltar os ânimos, ou assim mostrou-se um cidadão local, gritando com o negro cobrador: "vou te mostrar o que é desrespeito!!", disse ele em tom ríspido. "Que ele vá à merda", pensei eu solipsista.


Cadeiras preenchidas, pessoas começam a ficar em pé. Conto-os, já são ao menos três... Próxima parada e perco minha conta. O percurso faz parte da história, e descrevê-lo é como tirar sua foto. Mas já tem tanta gente que não sei quanto disso tudo lembrarei depois. 


O calor derrete minha cara. Pude ver, quando eles ainda eram apenas três, que ao meu redor somente eu estava assim, inadaptado. Exerci então meu direito de mostrar o corpo: tiro a blusa, e com ela seco meu suor; de testa seca,  passo no rosto o protetor solar, e faço o mesmo em cada ombro.

O percurso se prolonga, e pouco à frente um acidente. Dois ônibus bateram, ao menos não foi de frente. Se o calor exalta os ânimos,  que azar de toda essa gente. Vai andando e vão descendo, a cada curva um ponto a menos. Eu vou, o ônibus vai, e a praia vêm!
Piratininga é o nome dela.

A terra aqui é de títulos exóticos: Gragoatá, Itacoatiara, Camboinhas; ontem, anteontem,  e ante - anteontem.

Na água que se esconde, a rocha é predominante. 

A Terra
é rocha.

Igor L.C.