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domingo, 3 de julho de 2011

Comer só uma coisinha

1-  Indo ao banheiro escovar os dente, subindo as escadas vindo do subsolo. Sente-se bem alimentado.
O cenário: Universidade de Brasília, Instituto Central de Ciências, Ala sul.


2- Ao terminar de subiar as escadas, sente a barriga doer em decorrência do esforço pouco posterior ao ato recente de alimentar-se.  Dá um passo adiante, e virando o pescoço distraidamente para a esquerda, vê a lanchonete a funcionar. A lanchonete está fechando, e só há um funcionário. Pensa:

               “hmm, comer só uma coisinha antes de dormir…”


3- Começa a deslocar-se rumo à lanchonete, ia sonhando:
               “será que tem algo sobrando,… hmm, só uma coisinha antes de dormir…”


4- Já aproximado, pensa:

                “como assim !#&%!? Eu estava indo escovar os dentes!… anda, volta, você não precisa comer!”


5- Retorna rumo ao banheiro e, enquanto caminha, pensa:
               
                “eu não estou com fome, eu quero é fumar, é por isso que eu fui querer comer!… Ora !#&%!, poder deslocar a causa de meu comportamento para a pulsão pelo cigarro, é algo que só tornou-se possível desde o advento da psicanálise com Freud!”


6- Saiu do banehiro e voltou para onde estava, esquecendo-se de escovar os dentes.

Igor L.C.

sábado, 2 de julho de 2011

A Chuva

A chuva é uma dessa coisas que prendem involuntariamente a nossa atenção. De amplitude maior, há aquelas que antecipam expectativas alheias por meio de movimentos intencionalmente pré-projetados. Como abrir mão da fenomenologia, ou existencialismo e hermenêutica? A chuva pouco a pouco passa a ser ignorada, antecipada como o mesmo que já vai passar. É só um (talvez até mesmo longo) momento. Uma etapa do dia que uns passam vivenciandoa-a na pele, molhando-se e correndo; já outros, observam e ignoram. A chuva fica mais fraca, as pessoas percebem e renotam-a. O vento frio que pelas janelas agora entra, fazem-nas por casacos. A chuva já não será mais esquecida. Lá fora, as pessoas já estão a andar por entre a chuva; as gotas formam um fino tecido que amanta-as pela manhã. O aspecto de segunda-feira final de verão, águas de Abril, sobressalta aos olhos. A chuva volta a cair forte, e a essa hora, as pré-expectativas de boa parte dos estudantes observadores do lado de dentro da biblioteca desmoronaram em pequena aflição. É pouca, mas não estava ali, e tira o foco, em alguns vira fome, em outros o banho tomado, o não tomado, o café e a briga de ontem a noite.

 

Tudo vira chuva. 

Igor L.C. 

 

Licença Creative Commons
Esta obra foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Brasil.

Papel

A todo homem cabe um lápis.
A humanidade só existe enquanto letra,
e um homem sem papel, é arte sem lugar...

Sem caneta,
A cabeça,
É limbo criativo,
Frágil e des-construtivo.

Papel é tudo aquilo em que pode o homem se expressar,
A parede, sua pele,
Tudo pode se animar

A alma, insaciável criar e repetir
Ensimesmada sempre está
Tal ser sempre decidir. 

Platônico o Amor

Frugal amor ameixas...
Tuas buchecas contra o vento,
Mais veloz que os planetas desse cosmos...

Cabelos são o tempo;
Notas holandesas, flores e francesas,
Perfume que inalo e lembro, lendo...

Você e suas frases, rubores inevitáveis.

Passa o pó de base,
Ameixas brancas disfarçadas;
O não dito pedagógico,
Faz-se escrituras sagradas.

Disfarço a disritmia...
Todavia, a síncope me avassala,
Nervosa, minha sala, me assola, minha parte, tua sombra,          me ignora.

Só um vazio

De frente para a janela, os carros atropelavam seus tentados sonhos. Deitada, ela podia ouvir o mundo, ruidos de uma conversa próxima, suas recordações; ouvia o recente choro agora ausente de uma criança morta. Misturava-se à sua frente o amontoado de vozes do cotidiano, que ecoavam por entre a soturna lembrança da perda do filho. Havia dias que não dormia bem. Acumulava-se para isso esta eterna labuta do cotidiano. Ter de trabalhar, dívidas a pagar, ter de acordar e tudo isso viver. Era inevitável ter de viver, mas viver tinha sido até ali esperar. O dia-a-dia era o espaço em suspenso ao aguarde do fim do primeiro ciclo, o ciclo materno de ser para continuar sendo. A realidade desfacelara-se à sua frente e, impotente, ela, Juliana Sabatela, não conseguia dormir. Pouco a pouco seu mundo lúcido confundia-se com o horizonte onírico da verdade. Não fosse pelas frequentes visitas que ela, por vários querida, recebia, talvez tivesse mesmo perdido-se para sempre. O sentido do outro era confirmar a realidade compartilhada com o outro, e nossa mente, quando muito sozinha, multiplica-se e abranje, tornando-se companhia e realidade única, tornando-nos loucos. Ela demonstrava claros sinais de perda da razão, e vinha mesmo preocupando os que lhe cercavam. Mas os que mais intimamente conheciam de pé de ouvido sua história de vida, por mais que se sensibilizasem ainda mais, por outro lado entendiam perfeitamente o porque do surto. Há quatro anos que Ivan a acompanhava mensalmente para que se cumprisse o tratamento conceptivo. Quando finalmente Renan nasceu, a juventude daquele casal eternizara-se no novo ser, e todos os projetos de ambos, lançados pela precisão da razão, rompiam-se agora, largando-os num mundo sem chão.

                                                                                                                   Para     
                                                                                                                    Tatá